terça-feira, 14 de outubro de 2008

As Terras Irmãs


Home bittersweet home. Voltar para Milão depois de um fim de semana destes pode ser um pouco deprimente. É como voltar para a rotina depois de umas férias de sonho. Mas, falando a verdade, eu ainda não tenho nada que se possa chamar de rotina. Vero vero..
Por onde começar, tanto se passou e tanto aconteceu que as memórias ainda recentes da viagem estão um pouco difusas e apagadas. Diz-se que a nossa memória funciona melhor quanto a recordações mais longínquas no tempo e pior quanto às mais recentes. Talvez por tudo estar ainda tão fresco e tão "perto". Sempre posso ir fazendo actualizações futuras caso me lembre de mais alguma coisa relevante.
Sábado acordámos (get used to this sentence) às 5h da matina. Ou melhor, eu acordei, olhei para o despertador e disse para mim mesmo que eram só mais 5 minutinhos mãe. Uma hora e meia passou e com uma pergunta inocente da Rita "Não deviam acordar?" acordei sobressaltado e com ganas de matar alguém. Mas isso ficaria para depois. Primeiro tinha que tomar banho, acordá-los e fazer a mala. É claro que a meio da algazarra matinal apareceu dentro de mim o Sr. Stressado. O Senhor! Acho que nunca me tinha despachado tão rápido a me aprontar e por isso ainda esperei uns minutos na entrada. Tempo suficiente para me desesperar. Faltavam 20m para o comboio e ninguém parecia preocupado. Solo io. É claro que já na estação não encontrámos, nas caixas automáticas, o destino que o Luís nos tinha dito. Deiva Marina era o seu nome e muito me ri (para dentro) quando me disseram que a terra se chamava assim (agora que noto, não tem assim tanta piada). Dirigimo-nos às bilheteiras para comprar "manualmente" os bilhetes e afinal a estação-destino chamava-se Monterrosso al Mare. Belo nome pensei eu, e ri-me outra vez para dentro (o que foi estranho). Metemo-nos no comboio com as pequenas mochilas e bem agasalhados. Eu ainda estava adoentado e CinqueTerre, pelas fotografias, devia ser um local fresco com uma constante brisa marinha. ERADO. Depois de 3h30m, com uma mudança de comboio a meio, o calor apertou feito estúpido e quando chegámos deparámo-nos com uma praia mesmo à frente da estação. A visão do mar deixou-me muito entusiasmado. Quando cheirei a tal brisa marinha (mas quente) senti-me um pouco em casa e percebi o quão habituado a Portugal eu estava e estou. A falta de mar em Milão é um dos pontos negativos na cidade. Não há uma referência geográfica e o ar é mais encafuado. Mas voltemos à tal praia.
Como não queria apanhar sol na cabeça, pois tinha medo que começasse a ficar com febre (é assim que começa. Um bocado de sol e estás feito), tapei-me com o capucho do meu casaco, mas o calor tornavasse cada vez mais insuportável. Tirei os sapatos, meias, arregacei as calças à marinheiro e livrei-me do casaco. Fomos até à beira mar molhar os pés e sentimo-nos na nossa terra natal. A água estava optima e percebemos o quão estúpidos tinhamos sido em não ter trazido fato de banho e chanatas. RAIOS. Ah, um pequeno aparte. O Diogo não chegou ao mesmo tempo que nós a Monterrosso. Quando mudámos de comboio, ele resolveu apanhar o comboio não no binário 1 mas no binário 2. Ou seja, a Rita chegou a ver uma pessoa a bater na janela do comboio passante. Motivo para umas boas risadas.
Voltando para a praia. Depois de comermos umas bolachas, o Luis, Francisco, Marta e um novo amigo, o Diogo (outro Diogo. Isto de não se por apelidos pode tornar a minha vida complicada), apareceram finalmente na praia. Todos preparados para aquele clima e temperatura que se fazia sentir, vinham de chinelos e fato de banho. E comida! Frango, pão, queijo e coca colas. AVISO: Durante todo o fim de semana não gastei quase nenhum dinheiro em comida e o que comi foi pão com queijo o tempo todo. Pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. FIM DO AVISO
Preguiçámos calmamente na praia e depois de eu tirar uma boa dose de fotografias ao Francisco (que é como já disse o mais chato modelo fotográfico que já conheci) resolvemo-nos por a andar. Fui descalço como os meus pés tanto gostam e usei a minha planta calosa de maneira a nunca me magoar. AVISO: Todos os turistas olharam com horror para os meus pés. Eles calçavam botas de montanha. Os meus pés riram-se só de imaginar o calor que eles estavam a sentir. FIM DO WARNING. Quando chegámos ao topo, a uma espécie de miradouro da cidade, pudemos ver o quão transparente era a água e o quão suados nós estávamos. Falando em suor, o Diogo, que se tinha enganado no comboio, lá conseguiu chegar a Monterrosso e quando o vi pensei:"Nunca tive o prazer de observar alguém tão suado". Acho que mais para a frente piorou, porque, com as botas calçadas e o casaco vestido, a meio da caminhada ele podia ter mudado o seu nome para Sr. Suado Pocinhas. Espero que ele não leve a mal se ler isto, mas precisava de ser dito!
Chegámos a uma pequena vila, com uma pequena praia, que não me marcou muito. Assim foi, pois nem me lembro do seu nome. Passámos por ela sem dizer olá nem adeus e começamos a subir um caminho que fazia lembrar os vales de um campo qualquer em Portugal. Ao que parecia tinhamos de pagar 5euros para fazer aquela caminhada com destino a Vernazza. Ok, acho o preço um bocado elevado, mas como poderíamos nós atravessar aquilo? Por outro lado, será que valeria a pena dar 5 euros quando eu já era conhecedor das caminhadas intermináveis do Luis? Sh*t. Paguei e calei-me. Ou melhor, o Luis pagou-me porque eu não estava na posse de papel chamado dinheiro. LETS GO!
Ainda descálço, andei e andei como um cão vadio. Subimos escadas, escalámos colinas, dançámos o vira, e o melhor é que suámos mais um bocado (foi nestes momentos de intenso inferno que o Diogo se tornou numa poça no chão. Muito engraçado). Ao fim de uma hora, podia dizer que já tinha tido a minha dose, mas o caminho parecia não querer acabar. A Maria teve uma pequena crise de asma, mas quando lhe passou, acho que ficou ainda mais enérgica, substituindo a sua cabeça por um pequeno tomate maduro. As nossas costas, coladas à mochila, e molhando-a toda, estavam cada vez mais arqueadas de tanto caminhar. Eramos os pequenos corcundas da montanha, menos o Luis que, já habituado àquelas andanças que podiam matar qualquer um, continuava sempre na dianteira, assobiando com prazer. A Rita parecia ter perdido o espírito e alucinava com um descanso na sua casa. Boring. Já mais no final do caminho, o Francisco, também descalço, resolveu tropeçar e abrir um bocado do seu dedo do pé. Não era uma visão bonita de se ver, acreditem. Mas ele continuou, deixando um rasto de sangue pelo caminho. Assim, nunca poderíamos dizer que estávamos perdidos, não é?
Ao dobrar a esquina, depois de o Luis gritar de alegria, avistámos a nossa segunda terra a visitar. Vernazza. O esforço valera a pena e naquele momento só nos apetecia um banho de mar. Estávamos porcos, sujos, mas não muito mal cheirosos. Entrámos na vila, pelas suas estreitas ruelas, onde se podia ver as casas amontoadas, estando nós, rapazes, em tronco nú. É claro que, já na praceta e sentindo que ninguém estava a aderir àquela moda, resolvi vestir a t-shirt. Para além disso, o calor tinha desaparecido rapidamente devido às sombras das casas, tal como a vontade de mergulhar. Descansámos um bocado e partilhei as minhas bolachas com quem quisesse. A vila estava animada e a cor dos barcos e das casas eram muito vivas. Todo o ambiente fez-me lembrar alguma cidade localizada mais nos trópicos, onde se podia colher uma banana ali mesmo no meio da praça.
Demos uma volta pelo cais, procurando um sítio onde se pudesse tomar banho mais discretamente, visto que Maria, Rita, João e Diogo não tinham trazido fato de banho e assim tomariam de roupa interior. PARTY! er não. Até foi um pouco deprimente. Mas, por outro lado, foi uma iniciativa interessante e que vai ser relembrada mais tarde. Eu fiquei-me pelas vistas, já que também não tinha fato de banho e estava mais constipado que uma vaca. Gostei de ver o casal, Diogo e Rita, a ajudarem-se mutuamente a subir uma rocha, o Franciso a posar para as fotografias, mesmo em momentos de saltos artísticos, e o João a fazer amonas à Maria. Valeu a pena. O pior foi a quantidade de turistas, que pretendiam apanhar o barco, que ficaram especados a olhar para um bando de jovens com saúde a banharem-se apenas nas suas vestes mais privadas. Um espectáculo bonito de se ver, ironizo eu. hehe. Depois de toda a gente usar a minha toalha e de a deixar encharcada de mais para eu me poder secar minimamente (nem no dia seguinte a maldita secou), continuámos o nosso caminho para o próximo destino. Para não faltar à regra, não paguei o bilhete de comboio, entrando para uma apertada carruagem cheia de turistas com sede de poder. 5 minutos durou e por isso, localizando o pica antes de entrar no comboio, não tive muito medo de ser apanhado com as calças na mão, ou melhor, sem o bilhete para pagar. Chegámos a Corniglia! Sempre acompanhados pelo mar, presente constantemente ao nosso lado. As estações de comboio são quase todas ao lado do mar, e por isso, temos sempre uma optima vista durante a viagem.
Para chegar a Corniglia, tinhamos que subir o inferno em escadas. Todas em ziguezague até ao topo, onde ficava a terreola. Ganhei coragem, e subi um degrau.. e depois outro.. e depois mais 300 e lá em cima fiz a minha dança de Rambo. Eye of Tiger! É claro que os cidadãos de Corniglia não gostaram muito da minha dança pois não eram os maiores fãs do Rambo. Nem eu. Enfim, a Rita, já cansada e farta de mandar vir com toda aquela terra dos diabos resolveu que já tivera a sua dose de escaladas, deixando-se ficar calmamente a meio das escadas. Explorámos a vila, que não era uma locura de prazer visual, e fomos para um miradouro. O sol estava-se quase a por e deixem-me ser um pouco foleiro e dizer que nunca tinha visto um por do sol tão fantástico (esta nem é a palavra certa, se alguém quiser usar outra..). Parecia mesmo que o sol estava sobre o mar, reflectindo a sua sombra luminosa nas águas. Muito bom. Ainda no miradouro, encontrámos uns amigos da Marta americanos (não sei se eram todos, mas sei que um era por isso generalizo) que estavam também a estudar em Bolonha. É claro que passei rapidamente do português, não para o italiano, mas para o inglês. Lingua que falo com a ligeireza de um bom pirata britânico. Partilhámos pão com queijo (vêm?) e pusemo-nos a andar. A noite já caíra e por isso tinhamos de partir para a próxima terra.
Apanhámos o comboio para Manarola. Acho que é díficil explicar a beleza de todas estas vilas. Penso que se tem de ir lá e experienciar o que tenho estado a falar. A paisagem de noite de Manarola, com uma lua cheia sobre a vila, era quase surreal. Tinhamos vindo na altura certa, em que não havia uma abundância de turistas e podíamos tentar pertencer àquela vila, onde nunca antes tinhamos posto os pés. Tinhamos fome, estávamos cansados mas mesmo assim quisemos ver mais. Deixámos a paisagem de Manarola para trás e ainda guiados pela luz da lua, caminhámos.
Andámos por um passeio na falésia (acho que era este de que falávas Catarina) e vimos a lua cheia reflectida no mar. Gostei mesmo muito desta fase da viagem. Não estava calor, mas a noite estava com uma temperatura ideal e não se via ninguém por aqueles lados, o que podia ser sinistro, se não se chamasse Via Dell'Amore. Mais uma vez, pude ver milhares de cadeados presos aos corrimões e dedicações românticas escritas nas paredes. Faltavam eram os protagonistas que davam nome à Via.
Resolvemos, ou melhor, o Luis resolveu, com a sua mente infantil, pregar uma partida às três raparigas do grupo. Desatámos a correr para, mais à frente, lhes pregármos o susto da vida. É claro que a Maria e a Rita nos avistaram logo no nosso esconderijo elevado no monte e assim a partida foi um falhanço e o susto ficou sem efeito. Mesmo assim o Diogo ainda deu um berro que as assustou (mesmo já estando todos ao lado delas, er).
Chegámos a Riomaggiore, mas não tivemos tempo para ver muita coisa. Eles comeram qualquer coisa num café perto da estação e eu fiquei-me pelas minhas bolachas que tinham durado o dia inteiro. Desta vez comprei bilhete e apanhámos o comboio mais descansádos. Quem não tinha bilhete ia num stress constante à procura do pica. No fim não apareceu nenhum e arrependi-me de ter comprado bilhete. Mas também nunca poderia saber certo? O Francisco ainda continuava meio em baixo pelo seu dedo rasgado e estava também a morrer de sono. Pobre rapaz.
Saímos em Deiva Marina. A tal vila com o nome estranho. Era ali que iríamos dormir naquela noite. O problema é que até ao camping ainda eram uns bons 40 minutos a pé, e como o autocarro particular já tinha partido, tivemos mesmo que usar os nossos pés. Já agora digo que neste momento tenho os maiores gémeos que já alguma vez tive. Nunca andei tanto.
O camping era grande e teríamos que dormir numa espécie de tendas/casinhas, com chão de madeira e cada uma com duas camas. Entrámos, cada dois na sua, e dormímos com algum frio.

II dia

Não conseguia respirar. O meu nariz entupira por completo e os canais nasais (ou lá como se chamam) suplicavam por ar. Pelos vistos a noite fria tinha-me feito ainda pior e agora parecia estar ainda mais constipado. Fui tomar banho aos balneários e a água estava à temperatura ideal e sem vacilar. Só ali, no meio do nada, é que parecia haver canalizações decentes. Melhor que na minha casa em Milão. Troquei de t-shirt e meias e usei as mesmas calças e sapatos, que estavam num belo estado. Fomos comprar qualquer coisa para comer no minimercado que havia dentro do camping. Mais uma vez, pão com queijo regado com ice-tea. Experimentem e desmaiem de locura. Desta vez, tivemos o prazer de ter um autocarro particular a nos levar até à estação de comboio. Com um "Ciao!" saímos do bus e esperámos na estação pelo autocarro.
Sem bilhete lá fui eu por carris fora. O plano desta vez era ir até Santa Margherita e caminhar até Porto Fino. Talvez, dos dois, tenha sido este o dia que mais gostei.
Santa Margherita parecia já uma cidade, com a sua população sempre em movimento e grandes casas a surgirem em cada esquina. Mais uma vez, viemos parar a uma grande praia. Ah, as praias mediterrânicas parecem ser todas feitas de pedregulhos. Nada como as nossas portuguesas com a sua areia fina.
Porto Fino aí íamos nós! pensei eu. Mas mais uma vez, à minha frente abria-se um caminho interminável com o sol a bater-me na cabeça. Andei, marcando o meu ritmo, e a sombra foi-se cada vez mais instalando, tornando o percurso mais agradável. Pude ter o prazer de à minha frente se abrirem paisagens de sonho, com praias banhadas por uma água quase azul turquesa e atrás, milhares de grandes árvores atentas. As casas, que deviam pertencer a milionários que apreciavam umas boas férias, eram quase todas coladas ao mar e muito bonitas.
Foi com o Francisco que passei a curva e pudemos ver Porto Fino em todo o seu esplendor. À frente da vila havia uma pequena baía onde estavam atracados vários iates, veleiros, barcos, etc. O dia estava muito bom e dava uma luz de verão à vila. . Tendo sido eu e o Francisco os primeiros a chegar ainda esperámos um bocado pelo resto do grupo. Aproveitámos e comemos pão com queijo (sim, já fiz o favor a mim mesmo de deitar todo o pão e todo o queijo para o lixo cá em casa. Não se preocupem). Explorámos a vila e sentámo-nos na praça para descansar. Depois quisemos ir ao miradouro e mais uma vez a Rita não quis ir. O Diogo e a Maria também se deixaram ficar sentados para depois irem todos para uma pequena praia, onde já tinhamos passado, mas que parecia valer a pena (mais tarde soube que a praia já estava coberta em sombra, muahah). Perderam muito! Apesar do caminho ser todo a subir, a vista sob a vila era muito boa e pudémos avistar quase toda a costa
Fizemo-nos à estrada e fomos ter com os três que não quiseram ir lá a cima. Não estavam na tal praia mas numa espécie de jangada de pedra mesmo ao lado de passeio. Mais uma vez, tomavam banho alegremente de boxers, soutiens e cuecas. O melhor é que não eram os únicos.
Depois, Luis, Diogo, Marta e Fransisco tiveram de correr para apanhar o autocarro que os levaria à estação para partir para Bolonha. Não houve despedidas, mas um rápido adeus ao autocarro passante parece ter chegado para percebermos que tinha sido uma grande viagem.
Já no comboio com destino a Milão, adormeci que nem uma pedra e o pica não se dignou nunca a aparecer.

Houve tantas coisas que se passaram mas que não me lembro neste momento... Gostava de dar descrições mais detalhadas e profundas mas é algo que não tenho grande paciência, por isso fiquem com a minha palavra de que Cinqueterre é uma zona que toda a gente devia visitar. Dois dias apenas chegam para saborear tudo aquilo que as vilas têm para nos oferecer.
Gostei muito meus amigos.


sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Dia de Cachorro ~Nutela Remix~


Hoje o dia foi cansativo. Fisicamente falando. Acordei com dores de garganta e comecei a temer o pior. Não podia ficar doente em pleno Erasmus! De acordo com o meu sistema imunitário, adoeço por volta de Outubro/Novembro. "Damn"- disse eu. As únicas pessoas em casa eram a minha pessoa e a Rita. Esta tratou-me de me dar um ben-u-ron e uma mebocaína, que não cheguei a tomar por esquecimento. Fritei uns hamburgueres e adicionei cebolas, mostarda, sal, leite, um bocadinho de açucar, e um ovo. Um paraíso para o paladar, mas um paraíso um pouco cru. "Damn"- disse eu. Engoli o almoço e saí de casa um pouco contrariado. *espirro*. O dia estava meio enublado mas o calor apertava, e eu, com o meu casacão vestido, senti um calor dos infernos. "Damn"- disse eu. Corri para o autocarro sem bilhete, andei para o metro já com um e caminhei calmamente (o que é rápido segundo muita gente que me tenta acompanhar) até
a faculdade. Já na secretaria, a Alexandra (a assistente Erasmus) informou-me, chateada (dava para ver) que a reunião para discutir as minhas cadeiras tinha sido às 11h da manhã (eram já 16h). "Damn"- disse a minha consciência. Desculpei-me dizendo que pensava que podia ir lá o dia 10 todo. Plos vistos não era esse o plano. Minha culpa, minha responsabilidade... Mas não é grave, marquei para a semana seguinte uma reunião e visto que só começo as aulas dia 20, não existe qualquer problema em ter uma reunião quase em cima das aulas.
Saí da faculdade e fui até ao Duomo a pé! Para a maioria dos cidadãos milaneses este caminho é muito cansativo, mas para mim, lisboeta, faz-se com uma perna às costas. Demorei uma meia hora a chegar (vejam sff o caminho pelo google maps. De Conchetta ao Duomo) e fui buscar o meu passe de transportes! Finalmente posso andar livremente e sem medo de ser apanhado por algum pica. E o mais importante é que não gasto 3 euros por dia para andar de um lado para o outro.
Apanhei de novo o metro para casa, suando mais um bocado, pois os metros em Milão parecem ser aquecidos a uma temperatura de 38 graus mesmo que esteja um grande calor. Ah, o pior de tudo são as ventoinhas que deitam vapor de água para as pessoas que esperam o metro. Uma cidade cheia de contradições.

Quanto à fotografia... é o meu novo vício. Eu que não sou um homem de vícios consegui arranjar um comestível. heh. Nutela com palitos. Comprei no supermercato uma dose industrial deles por um preço bem aprazível e um frasco de Nutela que já está no fim (comprei há dois dias..).

Amanhã em princípio vou a Cinqueterra (espero que seja assim que se escreve), apanhando o comboio às 7h e tal da manhã. Muito cedo para os meus gostos...

A Internet Encantada


Agarrei no computador e andei com ele pela casa descalço. Sempre gostei de não andar calçado dentro de casa. Como a internet tinha desaparecido de nossa casa como por magia, resolvi afixar nos postes ao longo da rua alguns cartazes a anunciar o seu desaparecimento. Como recompensa pagaria com um pequeno cachorro vadio.
A minha ideia, para andar como um louco na casa com o computador na mão, era arranjar um hotspot, ou seja, um local exacto onde pudesse apanhar internet. Tentei a casa de banho, sentando-me na retrete. Se ali apanhasse alguma rede conseguiria matar dois coelhos numa só cajadada. Acho que percebem onde quero chegar. Bem, o que interessa é que na casa de banho não havia nenhum hotspot. Malditas casas de banho sem hotspots! Andei um bocado mais pela casa (o que foram dois passos) e cheguei à cozinha. Que aventura fantástica estava eu a viver! Precisava de contar a alguém como estava a ultrapassar as barreiras da vida para conseguir internet naquela casa. Rapidamente, dirigi-me à janela da cozinha (o que foram mais dois passos) e descansei o computador em cima da máquina de lavar. Era uma bela visão mas olhem, também não apanhava internet. Depois de espancar a máquina de lavar até à sua destruição (o que me deu um certo prazer mórbido), resolvi ir até à entrada da casa. Era um local sombrio, onde, segundo a lenda, viva uma velha bruxa chamada Samantha. Nunca a encontrei. MAS no alto do frigorífico (e não da bota, hehe...er, desculpem a piada fácil), encontrei a princesa Internet! Estava muito fraquinha (já não se devia alimentar há uns dias) e quando a avistei virtualmente pude ouvir os cânticos dos anjos. A luz era intensa e quase ceguei perante tanta maravilha junta. This is living, pensei eu. Consegui aceder ao meu e-mail e fui pela primeira vez na minha vida, feliz.. Uma felicidade verdadeira e intensa. A real, conhecem?... Ah, a vida...
STOP
Só consigo ir à net de vez em quando:
1- estar horas com os braços em cima do frigorífico cansam como estar a observar durante muito tempo um camelo a caminhar no deserto.
2- a internet é fraca e instável. Por isso de vez em quando vai abaixo.
3- o frigorífico é à frente da entrada da casa. Não fico muito à vontade quando alguém entra em casa e consegue naquele momento conhecer toda a minha vida pessoal.

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Quanto à mudança de casa, quero primeiro acalmar os ânimos das pessoas que me deram as suas sinceras e um pouco bizarras opiniões. "Meus amigos!" - disse o nobre Falacaro, que sempre tinha sido um adepto das revoluções contra um regime qualquer da terra dele - "Baixem as armas! Se queremos paz teremos que erguer os braços e aplaudir um futuro melhor!" E nisto toda a gente se foi embora para casa com um tédio terrível.
Quanto à mudança de casa, acho que primeiro vou pensar seriamente se o tempo que demoro até à faculdade é assim tão custoso. Uma hora... é qualquer coisa. Mas o outro problema, segundo muita boa gente, é viver com portugueses. Eu percebo. Erasmus serve também para conhecer outras culturas, línguas bla bla bla yada yada yada. Mas eu nem comecei as aulas (só dia 20) e eu sei que ainda vou arranjar uns amigos porreiros NÃO portugueses. Certo? Certo. Por isso, vou tentando arranjar uma casa barata (lembrem-se que eu pago nickles pela minha actual casa, é muito barata) e com italianos (seria mais benéfico para mim para aprender italiano. Cá em casa fala-se muito português. Porque raio será?).
Enfim, muitos dilemas que estão na sombra. A dormitar como cães danados num dia solarengo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Banquete dos Reis

7/10/08


Mais uma noite erásmica, desta vez na discoteca/bar Lotus. Combinámos que só iríamos lá para aproveitar o free buffet mas acabamos por nos entusiasmar e "estacionámos o carro" lá a noite inteira. Foi divertido mas o problema é que metade (ou mais do que isso) dos participantes da festa eram portugueses! Para onde quer que eu me virasse ouvia sempre um "Olá!" amigável. Que ardam no inferno portugueses de uma figa! E pior! Encontrei conhecidos na festa. Conhecidos que encontro na noite de Lisboa! Voltei à minha terra natal em pleno Milão. Oh well.

No Metro


De qualquer maneira, o contacto com os portugueses é fatal e não há maneira de evitar. Só com muito esforço. Estive com os meus mais recentes amigos mas também fizemos outras amizades. Conhecemos uma americana de Alabama, com sotaque incluído! Também conheci uma coreana simpática que não se mostrou muito entusiasmada quando lhe disse alguns artistas coreanos que conhecia. Ainda estou para ter um/a amigo/a japones/a. Assim sempre podia praticar o meu japonês com alguém que fosse realmente do Japão. E quem sabe se me tornasse muito amigo sempre teria uma casinha lá para poder ir de vez em quando! Muahah *o mais interesseiro*.
Voltando à fase do buffet. A comida era optima e estava tudo muito bem apresentado nas suas devidas travessas. Eu e o João enganámo-nos e tirámos dos pratos mais pequenos, o que nos fez erguer umas pequenas torres de comida com peixe, carne e legumes variados. Uma verdadeira delícia que me ia fazendo vomitar de tanta gula. Fiquei-me por um prato mas o João e Maria decidiram repetir ainda uma segunda vez. Já que no dia seguinte não iríamos comer tão bem, toca a encher o estomâgo para que possamos ficar saciados por uma semana inteira.
Na minha opinião, e eu sei que quase toda a gente discorda, a música nas discotecas milanesas tem se revelado muito melhor do que as de Lisboa. No começo da noite a música está numa fase mais comercial (talvez a minha preferida) e durante toda a noite torna-se mais club mas com os seus toques ainda comerciais. O DJ (lol) tocou também umas kizombadas de que tanto gosto! O que é optimo porque não gosto de uma batida repetitiva e sem letra, refrão e versos. Mas isto sou eu. E foi por isso que eu gostei muito da noite de ontem.
Fim da noite apanhar boleia

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O lago que se achava famoso.


Era uma vez um planeta. Um planeta muito pequeno que pairava no negro do universo. Engolido pela escuridão e perdido no meio do nada. Um planeta solitário que não conhecia mais nada para além do vazio. Rodava sobre o seu eixo, mas não sabia para que lado girava. Não tinha sombra. Não conhecia a sua forma e a sua existência estava dissolvida desde que nascera.
Sobre a sua superfície existia uma única pequena população que não se podia reproduzir. Viviam há muitos milhares de anos entre si e também não conheciam mais nada para além dos seus. Apesar de ser uma população pequena e da mesma espécie, cada membro era diferente e detinham as mais variadas personalidades. Uns gostavam de tocar piano, outros gostavam de comer bolo de morango, outros gostavam de cantar ópera, outros gostavam de saltar de penhascos para o mar. Outros não sabiam ler, outros sabiam. Outros sabiam fazer contas e outros sabiam dançar. Apesar de existirem certos conflitos entre si, todos tentavam se dar bem e guardar a paz que detinham há muitos anos.
Um dia, no centro da pequena aldeia onde viviam, um pedaço do solo foi engolido pela terra e um pequeno buraco apareceu. Não cabia lá uma pessoa, talvez uma criança, mas ninguém se atreveu a descer para dentro do fundo buraco.
Semanas passaram, e as pessoas habituaram-se ao estranho buraco, nunca se dando ao trabalho de o tapar. Mas um dia, uma pequena menina apareceu lá de dentro. Uma menina cor de barro, com um cabelo curto e escuro e uns grandes olhos pretos. Nascera no centro do Planeta, no seu interior, onde a lava devorava e a rocha fervia, onde a energia era uma força bestial e submergia para dar vida. Gaia era o seu nome.

Hoje resolvemos ir passar o dia ao Lago Como! Mais uma viagem para entrar na lista. Como só começo as aulas dia 20 penso que é importante aproveitar o tempo para viajar e conhecer novos sítios, novas coisas. A experiência de hoje foi muito boa e valeu a pena.
Como sempre, acordei a horas e levantei-me sem protestar comigo mesmo. 9h. Tomei banho e depois tentei acordar a Maria e o João. "Chama a Maria primeiro", "Chama o João primeiro". Desisti, irritei-me e fiquei calado a tomar o pequeno almoço. Se eles não se conseguiam levantar para ir fazer a viagem, mais valia ficarem mesmo a dormir o dia inteiro. É claro que não aguentei e fui acordar à força a Maria. Tomou banho e depois fiz o mesmo com o João. Metemo-nos no autobus a tempo e a horas e, mais importante que tudo, sem me deixar maluco de stress para chegar a tempo a Cadorna, à estação dos comboios. Comprámos os bilhetes numa máquina automática e esperámos pelo Francisco Cabral que lá apareceu com a sua companheira, a máquina fotográfica. O mais chato de todos para tirar fotografias.
Uma hora até ao lago. A viagem fez-se rapidamente e sem grandes problemas. Chegámos e encontrámos uma pequena aldeia/cidade (?) à nossa espera, muito calminha e bem arejada. O lago estava mesmo à nossa frente e por isso corremos para a água e nadámos. WRONG. Ficámo-nos pelas vistas. Comprámos bilhetes para o barco e, depois de esperármos uns minutos, embarcámos num pequeno barco turístico. Ficámos na parte de fora atrás. Ah, que bela paisagem, onde quase que podíamos avistar ninfas do lago a banharem-se nas águas límpidas. Falando em ninfas, havia um número considerável de cisnes e patos a nadarem.
Saímos do barco da segunda estação e explorámos por uma hora a vila. É impressionante a quantidade de palacetes e grandes palácios que podemos encontrar. Fez-me lembrar um bocado Cascais nos seus tempos áureos (mesmo que não tenha vivido nesse tempo já vi fotografias). O problema é que estava tudo fechado! Pelo que percebi, com o meu italiano rudimentar, as lojas fecham e as pessoas descansam à segunda. O mesmo se passando ao fim de semana e à sexta feira. Great.
Embarcámos outra vez, e fiz questão de levantar a bandeira pirata e tomar o controlo do barco! Os prisioneiros foram lançados, alguns, borda fora e outros para uma apertada cabine, já que não tinha uma masmorra. Viajei até onde os sonhos me levassem e depois acordei. O Francisco tinha-se esquecido do seu guia na última estação! Ah o raio do puto que nunca faz nada de jeito. Aterrámos numa outra vila e Maria, João e eu passeámos mais um bocado, enquanto o Francisco voltava para buscar o seu guia mágico. É claro que nós os três, depois de uma intensa caminhada, deixámo-nos cair na calçada e descansámos. Não passava ninguém pelas ruas e sentimo-nos perdidos, no bom sentido, no meio de terras italianas. Era estranho estar tão longe de casa a apanhar sol. Estava um dia radiante e com uma óptima temperatura. O Sol até é uma estrela porreira.
Resolvemos continuar a andar e voltar para o pequeno cais. A minha fome apertava, como já é hábito, e comecei a fraquejar e a ficar mal humorado. Tinha de comer. Apanhei um pato e comi-o ali mesmo para grande horror dos meus companheiros de viagem. Ofereci um bocado da perna mas recusaram imediatamente.
O barco que nos iria levar de volta chegou e pusemo-nos a andar daquela maldita terra. (Parece que não mas muitas horas tinham passado desde que tinhamos saído de Como). Voltámos ao primeiro cais de todos, a Como, e fomos ao Duomo. Estava tão cansado que só me apetecia ir embora. Mas não sem comer um gelado. Iogurte com amoras silvestres e Spagnola. Sabores estranhos mas gostei. Gosto de variar. Não sou como o João que come SEMPRE o gelado de sabor a banana. Loser.
O comboio levou-nos e durante a viagem adormecemos. Nem quando o pica me pediu o bilhete acordei.

Enfim, mais um dia bem passado apesar do seu final (onde estou agora) não ter corrido tão bem. De qualquer maneira, jantei uns bifes feitos por mim. Acho que estou a melhorar! A Maria e João gostaram muito e eu senti-me orgulhoso. Agora tenho de aprender, com alguém a me orientar, a fazer arroz e esparguete. Eu sei que é facil mas não discutam comigo, ensinem-me que eu aprendo com a boa vontade de um cozinheiro amador em vias de se tornar famoso.

Mestre Martim


P.S. - Obrigado Maria, pelos conselhos jurídicos que me deste. Fiquei mais elucidado e esclarecido! Sim, não sei como não me lembrei da grupeta jurídica mais fixe. Obrigado por me lembrares dela! ;)

P.S.2 - Obrigado também pelos comentários! Saibam que os leio com muito gosto. Obrigado (é o último) pelas mensagens que me mandam para o telemóvel português mas eu como estou sem dinheiro não posso responder godammit. Peçam-me o número italiano! ;)

P.S.3 - Mais tarde posto mais fotografias do Lago!

domingo, 5 de outubro de 2008

Verona city


04/10/08

Cheguei à bocado a casa e foi bom ve-la vazia, para variar. Pude arrumar minimamente as minhas coisas, por os sapatos a arejar (sim, era mesmo urgente) e fazer um jantarinho para mim (salsichas, ovos e cogumelos tudo regado com polpa de tomate, mostarda, sal e um bocadinho de leite). Estava muito bom como prato principal. O pior é que quando passei à sobremesa descobri um monte de fruta e legumes com bolor. "Os produtos que comprei no mercado!!" - berrei eu depois de abrir a janela para que toda a vizinhança paquistanesa e chinesa ouvisse. Alguém lá ao longe (desconfio que no Além) mandou-me calar e atirou um sapato, tal como se faz a um gato cantor amante fatal do luar cheio. Mas isto tudo aconteceu (mais ou menos) depois da minha viagem a Verona.
"Uma bela terra...mas pequena de mais para os meus gostos requintados" - opinou o nobre Falacaro.
De facto, Verona é uma cidade bem mais pequena que Milão. Mas ainda assim, muito simpática e pessoal, um pouco como Bolonha (mas sem toda a tijoleira que teima em aparecer. Para os amantes de tijolos, Bolonha é o local ideal para os apreciar).
A minha partida para Verona foi atribulada. Combinei com amigos (que vivem noutra casa que não a minha) o encontro na estação de Lambrate. O meu stress aumentou quando reparei que a Maria ainda estava a tomar banho, o João não tinha lavado os dentes, e a Rita estava a fazer não sei o quê. Tinhamos de nos despachar. Comecei a tentar empurrá-los para fora de casa. O autocarro nunca mais vinha. Chegou. A viagem foi feita em silêncio porque eu estava muito concentrado em ver o tempo passar pela janela do autocarro. Chegámos à estação central. Corri que nem um maníaco para o metro e eles bem me tentaram acompanhar mas não conseguiram. Apanhei eu o metro e eles ficaram para trás. Cheguei à estação. 1 minuto para o comboio partir. Lá avistei os meus amigos e consegui entrar no comboio. Felizmente já tinham comprado um bilhete para mim. Ah! A Maria, Rita e João? Viram o comboio partir e apanharam o seguinte. Muahaha. er
A viagem foi rápida. Verona é a uma distância de 2h de Milão, mais a sul. O dia estava optimo e o sol disse-nos para aproveitarmos ao máximo pois amanhã tinha combinado um encontro com a chuva (este sol era daqueles com um sorriso e uns olhos em curva ^_^). Aborremiento!
Da estação ao centro eram uns valentes 20 minutos e por isso, depois de a Carlota muito teimar, tomámos um caminho qualquer e partimos. A arena é enorme, acho que umas das maiores de qualquer coisa, e muito antiga (gostava de ter aqui o guia para dar informações mais construtivas a nível cultural). O Francisco foi apanhado de surpresa por um senhor de séculos passados e resolveu tirar uma fotografia. Quando nos preparávamos para ir embora o senhor estende a sua bengala para que oferecessemos uma gentil quantia. Grande bolota que este me saiu.
Comemos pizzas optimas que sabiam um bocado a iogurte e depois, gelados, talvez menos bons que em Milão, mas mesmo assim, excelentes. Desta vez pedi Papaya e Morango, que vinha cheio de mosquitos lá dentro. Aqueles da fruta. Tratei de comer tudo com agrado. "Pois o que não mata, engorda" - de acordo com a Mariana.
Vimos igrejas e mais igrejas e outros monumentos. O problema é que Verano é a cidade não-grátis. Tudo tinha de ser pago! Maldita Cidade Pagã! er. Consegui ver a varanda da Julieta, debaixo da qual, Romeu declarou o seu amor à tal moça. Achei mais engraçada a entrada para a casa, que tinha, colados nas suas paredes, vários post-its com recados de amor (acho que era isso, nem me dei ao trabalho de ler). Vejam por vocês.
(mais uma vez tenho gente a falar à minha volta o que torna difícil a comunicação por escrito, por isso mostro algumas fotografias para ficarem com uma ideia do que vi e pelo que passei)

Quando já se começava a fazer tarde e o sol dava a sua cambalhota para trás do monte, resolvemos que estava na hora de nos irmos embora. A meio do caminho dividimo-nos em dois: um grupo que ainda queria ver a Tumba da Julieta e o outro que se queria ir embora. Juntei-me ao primeiro com a Marta, Francisco e Mariana. A tumba não era mais que um pequeno nada, ou seja, não vimos tumba nenhuma, ou melhor, nunca chegámos a perceber onde e o que era a tumba. Que raio. De qualquer maneira, ficámos contentes por termos conseguido ver tudo o que havia para ver de interessante em Verona num só dia!
A viagem de volta para Milão (tenho imensa tendência para dizer e pensar em Lisboa quando falo em voltar para algum sítio. That's my home), fez-se ainda mais rápida e quase não a senti, pois fui quase todo o tempo a dormir. Não tenho hábito nenhum adormecer em viagem, mas como todos à minha volta adormeceram resolvi seguir o exemplo e dormi que nem uma pedra da calçada.

À noite, já em Milão, fui a uma festa de Erasmus na discoteca Stazio T-35. Fui meio sonolento para lá e quando chegámos percebemos que já passava da Happy Hour, ou seja, tinhamos de pagar 10 euros cada um. Falei com o porteiro e disse-lhe que esta era a nossa primeira noite de Erasmus e que não podíamos pagar tanto dinheiro por nada. Muito porreiros até nos perguntaram onde íamos a seguir. "Casa"- dissemos nós. "No Kansas" - disse uma mosca que passou. Nada feito. MAS quando nos afastámos com a cabeça baixa, o porteiro veio a correr chamar-nos e deixou-nos entrar de graça. Parece que estavam a precisar de pessoas giras. hehe er.
A noite revelou-se um belo caixote de lixo sobre o qual as moscas pairam extasiadas. That's right. Pessoas feias, bebidas caras e pouco espírito da minha parte (o fantasma da dança não apareceu para me assombrar). Vamos, disse eu, estava farto de ali estar onde só se viam monstros a fazerem figuras tristes. Não estou a ser mau. É a verdade.
Saímos discretamente da discoteca e procurámos um taxi. Então não é que Milão é a cidade não-taxis?? Andámos 30m sem ver um taxi disponível e a todos os que perguntávamos se sabiam de uma praça onde pudessemos apanhar um, nem respondiam, acelerando com flautulência.
No fim, consegui chegar a casa pão e calvo. Pensei que ia congelar de frio na rua mas consegui. Missão cumprida. O objectivo foi alcançado. Passei a meta! Vitória. Sou o vencedor,
Quero agradecer aos meus pais e irmãos todo o apoio que me deram. A eles dedico este óscar.

O mais fino prato italiano






Eu sei que podia estar melhor mas foi o que se arranjou num momento de inspiração culinária! Apreciem e provem virtualmente.

O Clubinho

O mais sozinho na festa


03/10/08
As searas delizavam suavemente pelo seu corpo, mas a uma velocidade tal que não se faziam sentir. A pequena cabeça da lebre manteve-se firme olhando em frente para o seu caminho. Ela sabia de antemão que pedras e que arbustros se meteriam no seu caminho e por isso, corria pelo gosto de correr, sem limites. A pequena cabeça da lebre não guardava um cérebro dotado da inteligência humana, mas um que se seguia pelo instinto e por uma particularidade interessante na fisionomia da lebre: um terceiro olho no meio da testa. Não era do tamanho dos olhos normais das lebres, mas um mais pequeno e de um castanho muito escuro, quase preto. A pequena cabeça da lebre funcionava como um sistema onde milhares de ligações acontecem no seu interior.
"O futuro" - pensou um dia a pequena cabeça da lebre - "é uma grande pedra envolta em musgo atirada a um lago escuro. Mas eu sei exactamente onde ela cairá".
O mundo já não era o mesmo. Os humanos tinham desaparecido e tal como a pequena cabeça da lebre prevera, a árvore cresceu. Quando o último humano desapareceu, o terceiro olho da pequena cabeça da lebre caiu. O pó varreu a Terra, os ventos mudaram e as correntes alteraram o seu curso. O tempo parou. O olho rasgou-se como uma semente e floresceu, transformando-se dia após dia, crescendo até os seus ramos tocarem no céu. "A Árvore da Vida. O futuro já não é meu, mas dela" - disse uma vez a pequena cabeça da lebre.
As ruínas das cidades desmorenavam-se e os pequenos mamíferos desenvolviam-se mais rapidamente. 1 2 3. As pesadas roldanas dos relógios voltaram a funcionar mas ao contrário de outrora, cada relógio marcava as suas horas, diluindo o tempo e esmagando num só, Passado, Presente e Futuro. 2 3 1. Estranhamente, o som da maquinaria pesada não se fazia ouvir. Só o som das searas a deslizarem no corpo da pequena cabeça da lebre.

Ontem fui pela primeira vez sair à noite em Milão! Mas antes disso, fui jantar a casa da Carlota Cabral, que me convidou. Apanhei o metro com o João e Maria para o Loreto, mas eles foram para outro lado qualquer ver o jogo do Benfica e estar com outros amigos. Quando saí do metro fiz questão de perguntar a toda gente onde era a Via tal tal. Cheguei. Só a entrada do prédio era motivo para dizer "Holy Macarony" e o apartamento podia ser o lar de um pequeno gigante bebé. Conheci os seus moradores, muito porreiros todos, e comi um belo esparguete à bolonhesa (era isso não era?). Também encontrei o meu amigo Francisco Cabral que foi lá visitar a sua irmã e fazer
um mini erasmus por Itália. Depois do jantar, fomos para uma festa de Erasmus em casa de um turco. A casa era muito pequena e podia ser o lar de uma pessoa normal apenas. Ou talvez duas pessoas normais. Conhecemos uma enorme quantidade de portugueses mas também fiz conversa com outras pessoas de diferentes nacionalidades. É engraçado como as conversas giram sempre em torno das linguas faladas. *acabou de entrar um pardal pela janela do quarto. Quando viu que não era a sua casa tratou de voltar a sair pela janela*. Pedimos sempre que nos ensinem alguma coisa de uma outra lingua que não falamos e depois rimos com a dificuldade em pronunciar as palavras. Aprendi a dizer "como estás?/tudo bem?" em holandês. Ou melhor, não aprendi nada pois não me lembro. Lembro-me é que não era assim muito bonito de se dizer. lol
After the party we went to a disco called "The Club", wich was quite nice but the music wasn't exactly my style. One particular thing I liked was that there was a singer on the stage and she would like freestyle with the live drums. I had the secret dream she would call me to the stage and I would rap the night away. But that didn't happen. When my party spirit started to decline I managed to go out and waited for Carlota. Since I didn't want to go home because the taxis are ridiculously expensive I went to sleep on a sofa in Carlota's house. I slept well and woke up around 7.30 am and made my way home. I was feeling sleepy and a bit sick, and I bet my face was green from all the bumps of the bus.

A árvore começou a dar frutos e os seus ramos entrelaçaram-se nas ruínas. As raízes cobriam a Terra e a folhagem revestia o mundo num manto verde. "Uma nova Idade".

Noite em Bolonha - a Primeira no Planeta Erasmus







quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Bolonha - um dia

Vendo um monumento típico em Bolonha.

Estou a não tentar perder o fio à meada mas esta coisa de não haver internet em casa tira-me um bocado do sério. Já chegado de Bolonha, e tendo só passado lá um dia completo, posso dizer que adorei aquela cidade e que me diverti muito. Mas a vida não são só cachos de bananas maduras por isso passemos para a "composição".

Acordámos cheios de sono no dia 30. Fomos despertados pelo simpático telemóvel do Luis mas voltámos a adormecer. "Levantem-se! Não estão em Milão e têm de ir conhecer a cidade!" disse o Luis como um bom pai dourado. Fizemos o esforço e fomos tomar o pequeno almoço e um banho de água gelada. Muito me queixo da minha casa em Milão, mas pelo menos ela tem água quente (de vez em quando mas tem). Lavei-me razoavelmente. Experimentem banharem-se em água gelada numa manhã também gelada. Lá consegui e até me senti bem depois do banho. Senti-me quente (the irony...). O mesmo fizeram a Maria e o João.
Seguimos então à aventura por esta nova cidade que nos abria o seu coração à bolonhesa. Fomos à Praça Maggiore, vimos a estátua de Neptuno, etc etc. O Luis levou-nos depois a um museu de arte e ciência. O meu tipo de museu.
Sentia-me como um puto com o olhar vidrado na montra, a desejar ardentemente aquele doce da Candy Shop. Vi peixes que nunca tinha visto e que foram empalhados no seu pior dia (a expressão das suas caras era motivo para umas boas gargalhadas instantâneas),
cobras de um comprimento gigantesco, formas diferentes de como um bebé nasce (o que fez a Maria quase vomitar), orgãos do corpo humano, mapas mundi antigos, etc. Muito bom. Ao saírmos Maria foi ter com a sua tia que viva em Bolonha (ela só se lembrou que tinha uma tia em Bolonha a meio da viagem... o que vale é que ela tem tios em todo o santo lado godammit!) e ficámos eu, João e Luis (que entretanto se juntou a nós pois as suas aulas no hospital tinham acabado naquele dia). Ele levou-nos a umas igrejas medievais com uma grande história por detrás. Muito interessante. Para além disso fizemos amizade (os amigos são flores de estufa. Há que regá-los de vez em quando para florescerem e se tornarem belas árvores de fruto. Carregadas de alimento saudável que dá vida à Terra. Esta gira em torno de um eixo. E nós sentimos a sua pressão esmagadora. E vivemos simplesmente como seres humanos que somos. O sol cega os cegos mas ilumina os bravos. Os sobreviventes da Terra perdida no espaço. No fundo do poço encontramos a moeda e desejamos a vida do Planeta. O poder do Planeta. A força do Planeta) com um monge beneditino muito porreiro. Sabendo que eu e o João estudávamos numa área artística fez-nos uma visita guiada pelo pequeno museu de uma das Igrejas(eram sete pegadas entre si, tendo o processo de construção sofrido várias alterações ao longo dos anos). Ficámos quase uma hora à conversa e já sentindo alguma impaciência do João, o Luis resolveu despachar o monge e lá nos fizemos à estrada saboreando os frutos colhidos da nova amizade (BORING HELL).
Vimos as duas torres também. Uma delas é enorme e imponente tocando no céu, mas a outra está cortada ao meio! Ao longo dos anos depois da construção, as vigas da torre foram cedendo para um dos lados e com medo que ela caísse sobre a outra resolveram cortá-la ao meio. É impressionante como a torre é inclinada. Quem passa lá por baixo desata a gritar por pensar que a torre está a cair sobre si! (É mentira mas seria bem divertido: a população de Bolonha gritar durante séculos sempre a pensar que a torre estava a cair. Eu chegaria lá e dizia, subindo para um degrau:"Povo de Deus, a torre já não constitui ameaça aos vossos corações e santas mentes italianas. Vamos festejar como se não houvesse amanhã!" No dia aseguir o Mundo acabava).
Fomos depois comer, de acordo com o Luis, os melhores gelados do mundo. Eram de facto uma grande fanfarra de prazer. Escolhi dois sabores não frutosos o que se revelou uma bela aposta. Saboreei e arrotei com prazer para a cara de uma nobre e gentil velhinha que montava no seu cavalo castanho e que sorriu com ternura desejando-me o melhor e que eu continuasse a arrotar daquela maneira pelo mundo fora. Simpática.
Chegámos a casa muito cansados. Para além disso vinha preocupado desde a viagem pois só tinha trazido umas calças e uma t-shirt (esqueci-me, perdoem o pobrezinho!). O Luis, sempre pronto a ajudar, emprestou-me uma t-shirt e assim continuei apenas com as calças que já usava há uns dias.
Fomos, acompanhados também dos nossos novos amigos que viviam com o Luis, para uns bares. A cidade é muito pessoal, muito pequena e pode-se andar a pé para quase todo o lado. Very nice indeed. A Maria tratou de desaparecer para falar com uma amiga. Fartei-me de a chamar para comer pizza, mas ela não quis e por isso fui eu, João e Luis acompanhados por uma sueca e duas francesas comer uma bela pizza familiar por 2.50! Comi que me fartei e voltei a arrotar. Desta vez a simpática velhinha não estava lá mas tratei de lhe mandar um pombo correio com um arroto em meu nome. Sempre atencioso, eu sei.
Depois de comermos a pizza fomos para um bar/pub muito engraçado e com um bom ambiente. Tratámos de pedir umas cervejas (a sueca pagou a minha visto que eu lhe tinha pago a pizza. Eu bem a tentei impedir mas ela disse-me que era um costume sueco dever o que era devido. E eu aceitei esse costume com agrado). Bebemos moderadamente e com responsibilidade (acreditem) e discutimos sobre música, tradições e política (as francesas eram de esquerda e não gostavam da Carla Bruni. Ao que parece ela era apenas um "vaso bonito com flores que só serve para enfeitar")! Conheci também uma amiga de uma amiga minha que já tinha ouvido falar de mim (sim és tu Maísa).
Fomos para outro bar/disco onde nos fartaram de mandar calar com xiuuss. Achei insólito. Mandarem baixar o volume num bar. Enfim, ainda me diverti e tivemos bons momentos entre erasmáticos,lol. O espírito de Erasmus solta imenso as pessoas e leva-as a falarem com toda a gente. Muito friendly.

No dia seguinte acordámos cedo para apanhar o comboio que iria voar até Milão. Claro que o perdemos, não fossemos nós quem somos. Comprámos bilhetes para o seguinte e ele chegou com atraso. Beautiful. O comboio era dividido por compartimentos o que era bom. Estávamos mais à vontade e podiamos deitar-nos esparramados nos bancos. O pior é que o calor apertava e não consegui dormir. Cantei algumas músicas para animar, e a Maria juntou-se à festa, enquanto o João pensou em atirar-me do comboio naquele momento.
Chegámos a Milão com alguma pena de não estar mais tempo em Bolonha. Num dia penso que aproveitámos ao máximo Bolonha, tanto de noite como de dia. E o mais importante é que fizemos bons amigos! A minha árvore das patacas está carregadinha de cabelas decapitadas de novos amigos. *O mais mórbido e sádico*.

Cheguei a falar com o senhorio em Bolonha é verdade... Telefonei-lhe e se calhar exagerei no tom porque ele se passou comigo e que não tinha de admitir aquela arrogância. Da minha parte houve compreensão mas não baixei a guarda. Expliquei-lhe tudo: que morava muito longe da minha faculdade e que a casa estava imunda. Ao que ele me respondeu que tinha pago não sei quantos euros a uns profissionais para limpar a casa. Então deixem-me só dizer uma coisa: Se eles eram profissionais eu chamo-me Fernando. E esse não é o meu nome.
De qualquer maneira encontrei-me com ele, já em Milão, para lhe pagar a renda do mês de Outubro e expliquei-lhe que estávamos a pensar em mudar de casa. Pai, um contrato deste género é apenas um acordo amigável sem qualquer questões jurídicas? Porque de acordo com o sr.senhorio, se nos mudármos todos o contrato é anulado/cancelado, mas temos que avisar com dois meses de antecedência, mas se só se mudarem uns de nós temos de arranjar mais alguns novos interessados moradores para se mudarem para a casa. Dois meses é uma vida inteira! Se pudesse mudava-me já. Acho que até seria benéfico para o senhorio ter a casa disponível agora para os novos estudantes que chegam a Milão nesta altura. Enfim, uma pequena preocupação que nos atormenta. Amanhã terei que dar alguma espécie de resposta. Não ficarei homeless mas há sempre o risco de não encontrar casa right away.








Desculpem este post longo, mas às vezes é preciso escrever para assentar as ideias.
Um beijo e um abraço,

Martim

P.S. - Mais tarde postarei fotografias da noite de Bolonha!